A estreia do Ulver, Bergtatt (1995), com o subtitulo Et eventyr i 5 capitler (um conto em cinco capitulos), e um marco do que se chamaria black metal atmosferico com tons de folk. A banda norueguesa, entao liderada por um jovem Kristoffer Rygg (Garm), inventa um dialogo entre a violencia do genero e a suavidade da tradicao musical escandinava. Um disco raro, gelido e luminoso ao mesmo tempo, anuncia uma sensibilidade que destoava no panorama da epoca, entao dominado pela escalada de negrume e velocidade. Aqui a beleza nunca e sacrificada a brutalidade: torna-se seu contraponto indispensavel.
Um conto folclorico feito musica
O titulo remete ao motivo do bergtatt: ser levado para dentro da montanha pelas criaturas do folclore noruegues, as huldras e os trolls. O album narra essa perdicao em cinco capitulos, misturando vozes dilaceradas e cantos limpos, guitarras em tremolo e passagens acusticas. Essa narratividade, rara no black metal da epoca, confere ao disco uma dimensao quase teatral, como se cada faixa fosse a cena de um drama antigo.
As melodias vocais de Garm, em particular, contrastam com a brutalidade ao redor e anunciam o gosto pela contencao e pela beleza que definiriam depois a banda. Sua voz limpa, quase coral, traz uma humanidade inesperada ao coracao da furia, abrindo clareiras de calma na tempestade.
O equilibrio entre frio e folk
O que torna Bergtatt tao forte e seu senso de dinamica. As ondas de blast beats cedem lugar a calmarias acusticas, a coros quase liturgicos, a ambientes de floresta noturna. O frio do black metal encontra o calor de uma cantiga antiga, e essa tensao permanente entre agressao e recolhimento estrutura todo o disco.
A producao, deliberadamente organica, evita a crueza extrema em favor da atmosfera, dando ao disco uma intemporalidade notavel. Longe das gravacoes mais lo-fi da cena, deixa os instrumentos respirarem e realca a riqueza dos arranjos.
O ponto de partida de uma trajetoria unica
O Ulver se tornaria depois uma das bandas mais inapreensiveis da musica, deslizando para o ambient, a eletronica e a experimentacao mais radical. Mas Bergtatt permanece ancorado no black metal, cujas fronteiras ja empurra. E a primeira parte de uma trilogia que incluira o acustico Kveldssanger e o cru Nattens madrigal, tres faces de um mesmo fascinio pela natureza e pelo folclore.
Classico e precursor ao mesmo tempo, Bergtatt permanece um pico de sensibilidade num genero muitas vezes reduzido a mera agressao. E a obra de uma banda que, desde os primordios, recusava rotulos e buscava a beleza ate nas trevas. Hoje se mede o quanto este disco abriu caminho para toda uma vertente do metal atmosferico, a que prefere a evocacao ao confronto. Seu frescor permanece intacto, e cada audicao lembra que um primeiro album pode ser ja o enunciado completo de uma estetica. Uma obra para redescobrir sem cessar. Nota: 8.5.








