Lancado em 2015 pela Epitaph, Abandoned marca uma nova etapa no universo narrativo do Defeater. A banda de Massachusetts muda de perspectiva e confia o relato a um padre corroido pela duvida, testemunha dos dramas que atravessam a saga familiar. E talvez o capitulo mais sombrio e intimo deste fresco de hardcore melodico. A passagem para a Epitaph da ao disco uma difusao mais ampla do que aos anteriores.

Um narrador em crise de fe

Ao escolher a voz de um homem da igreja, o Defeater abre um terreno rico em tensoes morais. A culpa, o perdao impossivel e a perda da fe estruturam a escrita de Derek Archambault, cujo canto se torna ora suplicante ora furioso. O disco avanca como uma confissao que nunca encontra absolvicao.

Uma producao mais densa

Musicalmente, Abandoned aperta o discurso. As faixas golpeiam rapido e forte, com guitarras cortantes e uma seccao ritmica tensa. A producao, mais musculada do que nos discos anteriores, da a banda um apoio mais pesado sem sacrificar a clareza das melodias. Alguns respiros arejam o conjunto, mas domina a urgencia.

A coerencia de uma obra

O que impressiona e a constancia do Defeater ao construir o seu mundo. Cada album dialoga com os anteriores, e Abandoned recompensa os ouvintes fieis que seguem a cronologia fragmentada desta familia. Por si so o disco continua acessivel, mas ganha imenso ao ser recolocado dentro do conjunto.

Abandoned nao inventa uma nova formula, aprofunda aquela que o Defeater ja domina. E um album exigente, por vezes desgastante, sustentado por uma conviccao rara num genero muitas vezes apressado. A banda confirma que figura entre os melhores contadores de historias do hardcore contemporaneo, capaz de transformar uma historia de luto e fe em musica frontal e habitada. Um capitulo duro mas necessario. Conta se entre os capitulos mais intensos de uma saga que nao parou de ganhar profundidade.