Em 1994, os Sick of It All ja nao eram um segredo bem guardado do Lower East Side. A banda levava o hardcore nova iorquino a um publico mais vasto sem trair um grama da sua raiva. Scratch the Surface e o disco dessa ascensao, um album onde a furia dos inicios encontra uma precisao de execucao temivel. Lou Koller ladra, Pete Koller recorta riffs afiados e a maquina gira com a disciplina de uma banda que percebeu que a raiva se trabalha tanto quanto se sente.

A raiva feita oficio

O que distingue este album e o equilibrio. A brutalidade esta intacta, mas agora canalizada, estruturada, tornada implacavel por anos de palco. Os tempos mudam com uma soltura impressionante, os breakdowns caem no momento certo, os refroes ficam na cabeca sem nunca suavizar a mensagem. Os Sick of It All encontraram a formula que faria escola: um hardcore massivo, com groove, direto, que da tanta vontade de dancar como de cerrar os punhos. A execucao e de uma precisao quase cirurgica, cada corte ritmico caindo como um convite ao movimento, pensado para a sala tanto quanto para o disco.

Letras que olham o mundo de frente

Longe do cliche, as letras de Scratch the Surface falam de integridade, duvida, responsabilidade e de como um individuo se mantem de pe num mundo hostil. Lou Koller nao da licoes: coloca perguntas, constata, recusa a resignacao. Essa maturidade na mensagem acompanha a maturidade musical e da ao disco uma espessura que falta a tantos imitadores. Sente se uma banda que pensa aquilo que toca. A banda dirige se ao ouvinte como a um igual, recusando o cinismo facil tanto quanto a licao de moral, e essa postura de honestidade direta atravessa cada faixa sem nunca afrouxar.

O album chega num momento de viragem, quando o hardcore e o metal comecavam a cruzar se mais abertamente. Os Sick of It All negoceiam essa curva com inteligencia: o disco toma peso ao metal sem nunca renegar as suas raizes punk e hardcore. O resultado e um som mais amplo, mais potente, que abriu portas a toda uma geracao de bandas sem nunca soar oportunista. Surgiu em meados dos anos noventa, quando o hardcore ganhava visibilidade, e encarna esse momento sem nunca limar as suas arestas.

Um classico que aguenta a distancia

Tres decadas depois, Scratch the Surface continua a ser um modelo do genero. A sua producao robusta nao envelheceu nada, as suas faixas funcionam tao bem ao vivo como nos auscultadores, e a sua energia mantem se contagiante. E o som de uma banda no auge da forma, que sabia exatamente o que queria dizer e como o dizer. Para quem procura perceber o que e o hardcore nova iorquino dos anos noventa, este album e uma porta de entrada evidente e um prazer que nao esmorece.